Um sindicato que germinou e nasceu praticamente por força do golpe militar de 1964 não poderia, de maneira alguma, fugir às regras do jogo da ditadura e deixar de ser representado por homens de “confiança” dos patrões e do regime. Infelizmente, mesmo contra a vontade dos trabalhadores, amedrontados pelo terror de 7 de outubro e a caça aos comunistas após o golpe de estado, isto aconteceu com o Sindicato dos Metalúrgicos de Ipatinga, que, além de ser dirigido por pelegos, vários dos seus dirigentes seriam também informantes do Serviço Nacional de Informação, como afirmam operários mais antigos da Usiminas. Até hoje suspeita-se de pertencerem ao SNI elementos da diretoria da entidade.
Para se ter uma ideia, o ditador Humberto de Alencar Castelo Branco veio a Ipatinga no dia 1º de março de 1965 para inaugurar o Hospital Márcio Cunha. “Na mesma data, é criado o Sindicato dos Metalúrgicos, Mecânicos e de Material Elétrico de Ipatinga – Sindipa”. Funcionava na presidência do órgão ainda não registrado o funcionário de “confiança” da diretoria da empresa. Alberto Maciel Soares.
Antes, os operários de Ipatinga eram subordinados ao Sindicato dos Metalúrgicos de Coronel Fabriciano (criado pelos trabalhadores da Cia. Aço Especiais de Itabira – Acesita), entidade pouco representativa no início. No primeiro semestre de 1963 sua direção foi pressionada, por uma assembleia de trabalhadores a renunciar e convocar novas eleições. “No entanto, o vice-presidente do Sindicato, Geraldo Ribeiro, conseguiu a presidência, conciliando as tendências surgidas no meio operário”. Talvez porque fosse Geraldo Ribeiro considerado um liberal, o sindicato tornava-se mais aberto, aproximava mais de seus membros, tornando mais democrático o processo de evolução dos trabalhadores da região.
Com o golpe de 1964, Ipatinga sai da condição de distrito de Coronel Fabriciano em abril do mesmo ano e transforma-se em cidade, por força da lei 2764 tendo como intendente Délio Beata da Costa, nomeado pelo então governador Magalhães Pinto. O sindicato desmembrou-se. Foi criada uma associação dos trabalhadores metalúrgicos, transformando em seguida em sindicato.
Alberto Maciel Soares ficou na presidência da entidade somente um ano (1964 a 1965), tempo suficiente para organizá-la e coloca-la nas mãos de outro pelego. Seu sucessor, Jorge Nomam Neto, ocupou a presidência do Sindipa por nove anos, de 1965 a 1973, passando a direção, em seguida, para José Onofre Ribeiro, que ficou até 1979. Durante todo esse tempo um silêncio negro se abateu sobre os trabalhadores de Ipatinga. Ninguém ousava protestar contra as péssimas condições de trabalho e de vida impostas pela Usiminas. Nem organizar chapa de oposição sindical. Qualquer suspeita dessa natureza era motivo para demissões, prisões etc. Mas falar de sindicalismo em Ipatinga já era proibido bem antes do massacre de 7 de outubro.
Trecho de uma reportagem publicada no jornal “Binômio”, no dia 14 de outubro de 1963 diz o seguinte: “Além da polícia particular, a Usiminas emprega soldados do destacamento local, que, à paisana e sem documentos, invadem os barracos, de dia ou de noite, para prender os líderes sindicais. Lá, falar em sindicato é proibido. Um exemplo: o operário Matozinho Ferreira Ramos, chapa 2666, chefe de equipe, demitido em 18 de agosto de 1963, quase foi castrado – disseram que ele era tarado – por estar promovendo sindicalização, além de querer a fundação de cooperativa própria dos operários. O seu caso já virou relatório, já em mãos de deputados em Brasília.”
Em 1979 assume a presidência do sindicato Paulino Floriano Monteiro, com proposta de mudanças. Só que as mudanças aconteceram apenas em transferências de cargos da diretoria. Praticamente não alterou no Sindicato dos Metalúrgicos, a não ser o assistencialismo. Em matéria de assistencialismo, o Sindipa é um dos melhores sindicatos brasileiros, pois é um dos mais ricos do país. Paulino afirma não ser pelego, alegando que sua fraca atuação é consequência do desinteresse e do não comparecimento dos operários nas assembleias.
Acontece que desde sua criação os trabalhadores metalúrgicos não confiam no seu sindicato. Nas assembleias, encontra-se mais vigilantes da Usiminas que operários. Calcula-se que a própria diretora da entidade se encarrega de “dedurar” para os patrões aqueles que mais se destacam nas reuniões. Com isto, temerosos de perderem seus empregos, quase ninguém participa das reuniões e o sindicato aceita aquilo que a empresa oferece, sem nenhuma discussão.
Por incrível que pareça, a Usiminas consegue manter intacta uma parcela de funcionários, que, tragados pela máquina alienatória, passa a servir de “bode expiatório” da empresa, servindo de justificativa para que outros, forçosamente, passem a seguir seus exemplos. Esses trabalhadores são “preparados” por psicólogos e chefes de seção a gostar mais da empresa do que de suas próprias casas. A alegação dos patrões é que a empresa, por estar oferecendo trabalho e salário, deve ser considerada em primeiro plano, depois a família. Frente a tudo isto, encontra-se, com maior naturalidade, operários elogiando demasiadamente a empresa onde trabalham, dizendo que a Usiminas é uma “mãe”, e assim por diante. Geralmente os que mais dirigem elogios à empresa são aqueles que recebem acima de 10 salários mínimos, embora alguns desqualificados também já estejam “abitolados” nesta situação.
Demonstração vergonhosa foi apresentada pelo Sindipa em 1982. Depois de uma eleição sindical fraudulenta, como denunciaram alguns integrantes da chapa 2, a diretoria do Sindicato fez dobradinha com o presidente da empresa, Rondon Pacheco (candidato a deputado federal pelo PDS) e se declarou pública e moralmente contra os trabalhadores. O resultado das eleições sindicais é apresentado no final de agosto, dando reeleição a Pulino Monteiro e como vice José Onofre Zequita, que retornou novamente ao cenário do sindicalismo. Este último declara-se, uma semana depois, candidato a prefeito de Ipatinga pelo partido do governo, ao lado do patrão Rondon. Novamente recomeçam as pressões.
O presidente da empresa transforma a Usiminas em um comitê eleitoral do PDS, fazendo campanha abertamente dentro das próprias seções de trabalho e ameaçando, através de sua chefia, mandar embora quem não votasse no sue partido. A campanha correu solta. Diziam que precisavam eleger seu candidato a prefeito a qualquer custo. Vários operários que se opuseram às ordens dos patrões foram demitidos. Alguns integrantes da Chapa 2, após sua derrota, foram chamados à presença de seus chefes e pressionados de demissão para trabalharem na campanha do PDS. Adélio Arlindo Duarte, por exemplo, candidato a vereador pelo PMDB, que há 12 anos trabalhava na Usiminas, foi chamado à sala de seus chefes, engenheiros Flávio Antônio Silva e Matuzalém Dias Sampaio, que lhe pediram a identidade da empresa bravejando: “se uma empregada doméstica fala mal do patrão, tem que ir para a rua. Assim, quem ficou contra nosso presidente Randon Pacheco, também está contra nós e não tem mais ambiente entre os colegas”. Segundo Adélio, “Matuzalém fazia reuniões diariamente para “sugerir” o voto em Rondon, rodando inclusive fitas gravadas pelo presidente, tentando fazer uma lavagem cerebral no operariado. No entanto, na hora de votar, Matuzalém foi para Araponga, perto de Viçosa”.
Compreende-se, com isso, que os trabalhadores, que já vendem sus força de trabalho para a empresa, não tendo, portanto, nenhum compromisso ético com esta, são de sua sobrevivência. Isto é um gravíssimo crime contra os direitos do homem.
O resultado não foi explicitamente satisfatório, pois a Usiminas não conseguiu eleger seu candidato a prefeito, que teve pouco mais de 14 mil votos (quase todos da Usiminas, que tem cerca de 18 mil funcionários) dos 70 mil eleitores de Ipatinga. Mas seu presidente foi eleito deputado federal.
É de se observar também que em meio às pressões, nem todos os funcionários da empresa que eram candidatos a vereador pela oposição resistiram à tentação, traindo seus princípios e os companheiros de partido. São eles: Albertides Damasceno, Dráuzio Rodrigues, Roberto Machado e outros, que eram do PMDB e passaram para o PDS.
Paulino Floriano Monteiro, que sempre tentou se defender das acusações de pelego, deixou de lado, na última hora, a causa dos trabalhadores e traiu a classe, chegando a pagar, com o dinheiro do Sindipa, páginas inteiras na imprensa da região pedindo apoio para o seu parceiro Zequita. Além da alta quantia que o sindicato gasta constantemente com a imprensa no sentido de promover e divulgar sua diretoria, parece ser também uma ótima fonte de renda pare enriquecer seus diretores. Zequita, por exemplo, que trabalhava como soldador na Usiminas, após deixar a presidência do sindicato conta com várias propriedades em seu poder, casas comerciais em Ipatinga e uma granja, além de uma bela mansão no bairro Iguaçu.

