O ex-embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Thomas Shannon, declarou que o ex-presidente Jair Bolsonaro é “página virada” para Donald Trump, que teria percecido estar mal informado ao aplicar tarifas de 50% aos produtos brasileiros. O encontro entre Trump e Lula na Malásia pode reverter as medidas.
Em entrevista à BBC News Brasil, o ex-embaixador dos Estados Unidos no Brasil Thomas Shannon afirmou que o ex-presidente Jair Bolsonaro representa uma “página virada” para o presidente norte-americano Donald Trump. Segundo o diplomata aposentado, Trump percebeu que estava mal informado sobre a realidade brasileira ou foi induzido ao erro ao aplicar as tarifas de 50% sobre produtos brasileiros em julho.
“Trump sabe que sua tentativa de proteger Bolsonaro da prisão e garantir que ele pudesse disputar eleições fracassou. Por que ele vai fracassar de novo quando já fracassou uma vez? Trump é astuto nesse ponto. Ele sabe quando não pode avançar em uma frente e procura outra”, declarou Shannon, que foi embaixador no Brasil nomeado pelo ex-presidente Barack Obama.
Mudança de estratégia
A mudança na postura de Trump, segundo Shannon, ocorreu após ficar claro que o Brasil e suas instituições não cederiam às pressões. O ex-embaixador destacou que o Supremo Tribunal Federal manteve firmeza tanto na acusação contra Bolsonaro quanto na proibição de sua candidatura nas próximas eleições.
“Acho que perdeu relevância principalmente porque o Brasil deixou muito claro que não iria ceder. E a instituição brasileira em questão — o Supremo Tribunal Federal — deixou muito claro que iria continuar com a acusação e manter a proibição de Bolsonaro concorrer nas próximas eleições. Uma vez que isso ficou evidente, o que os Estados Unidos poderiam fazer?”, questionou Shannon.
O diplomata explicou que as tarifas impostas pelos EUA teriam impactos negativos também para a economia norte-americana, afetando consumidores e empresas americanas que dependem de produtos brasileiros. “Acho que o presidente foi exposto, por meio do setor privado americano, a uma espécie de curso intensivo sobre o impacto que essas tarifas teriam no dia a dia de muitos americanos”, avaliou.
Encontro na Malásia
A confirmação de um encontro entre Trump e Lula na Malásia neste domingo (26) representa uma oportunidade para destravar as relações bilaterais. Lula afirmou que “não tem exigência dele e não tem exigência minha ainda. Vamos colocar na mesa os problemas e tentar encontrar uma solução”.
O presidente brasileiro destacou que está aberto a discutir qualquer assunto com Trump: “Não existe veto a nenhum assunto. Não tem assunto proibido para um país do tamanho do Brasil conversar com um país do tamanho dos Estados Unidos. Podemos discutir de Gaza à Ucrânia, de Rússia a Venezuela, materiais críticos, minerais, terras raras. Qualquer assunto”.
Questionado sobre a possibilidade de reduzir as tarifas de 50% aplicadas aos produtos brasileiros, Trump respondeu que sim, “sob as circunstâncias certas”, sinalizando abertura para negociação durante o encontro com Lula.
Shannon, que atualmente atua em escritório de advocacia contratado pela AGU para defender os interesses do Brasil no caso das tarifas, acredita que as sanções contra ministros do STF devem ser mantidas, mas que as negociações entre os países devem se concentrar nas questões econômicas.

