Por volta das 5 horas da manhã do dia 7, os cerca de 2 mil “rapazes solteiros” dos alojamentos Santa Mônica e Chicago foram postar-se em frente ao portão de entrada principal da Usiminas, perto da garagem. Ali foi explicado a cada grupo de operários que vinha chegando para o trabalho, os acontecimentos d noite anterior. Aproximadamente às oito horas, a multidão aglomerada na portaria da usina era cerca de 10 mil pessoas, inclusive trabalhadores das empreiteiras.
Novamente a polícia entra em ação. O tenente Jurandir Gomes de Carvalho ameaça atirar se a massa não entrar para o trabalho, como se nada tivesse acontecido na noite anterior e os trabalhadores fossem propriedade privada da Usiminas. Disse que tinha ordens de mandar seu pelotão abrir fogo, se necessário, para obrigar todos a entrar em serviço. O relatório da própria polícia dizia que a ordem era para atirar para cima e para baixo, como aviso.
Uma onda de protestos tomou conta da multidão, que começou a vaiar a PM pelos seus atos desumanos. Discursos de improvisos. Tentava de diálogo. Tudo em vão. O padre Avelino, vigário pacificador que tentava acalmar os ânimos, sugeriu que se buscasse membros da diretoria da Usiminas, inclusive o Dr Gil Guatmosin que se encontrava no escritório da empresa, para que se pudesse dialogar. A resposta que se obteve era que a autoridade policial competente poderia fazer o que julgasse conveniente para os trabalhares retornarem ao trabalho ou pelo menos deixassem a aglomeração, e que não se rebaixaria a conversar com grevistas. A esta altura estava havendo uma reunião, uma tentativa de acordo, numa sala do escritório central, perto dali, entre uma comissão de operários e alguns membros da diretoria da Usiminas e o capitão Robson Zamprogno, comandante da cavalaria. Conta-se que em meio ao corre-corre, esse comandante passou um papel para o tenente Jurandir, sendo que ninguém, a não ser eles, ficou sabendo do conteúdo desse bilhete.
Após um sinal do tenente Jurandir, os 18 policiais subiram em cima da carroceria do caminhão placa 96-27-76, de Mantena, onde já se encontrava uma metralhadora de tripé sendo domada por um soldado, e se prepararam para o ataque. O Padre Avelino tentou falar algumas palavras num palanque improvisado à beira da ferrovia, mas não conseguiu dizer muita coisa, percebendo que os policiais se colocavam em posição de ataque, sob as ordens do Tenente Jurandir. A princípio, ninguém acreditava nesta atitude, tanto que o Padre e um membro do sindicato procuraram acalmar os trabalhadores dizendo que as metralhadoras e os fuzis só tinham balas de festim, pois estavam convencidos disto. Um operário prestaria depoimento no jornal Em Tempo, em 1978, e diria sobre este exato momento, “o tenente Jurandir disse de público que tinha recebido ordens diretas do Dr Gil Guatmosin e do Governador Magalhães Pinto para abrir fogo, caso os operários não evacuassem o local. Foi o que ele fez”.
Quando os soldados tomaram posição de ataque, alguns trabalhadores tentaram formar um cordão de isolamento dando-se as mãos, e alguns outros teriam atirado pedras na direção dos policiais, pois a contrário do que a polícia afirma em seu relatório, os operários não estavam armados naquele momento. O ódio tomou conta da massa. Os soldados berravam de cima do caminhão. Enquanto isso, o fotógrafo amador José Isabel Nascimento, que nas horas de folga fazia fotos para os companheiros de trabalho, para ajudar na manutenção da casa, já havia batido um filme inteiro, e colocado o segundo filme em sua Kodak; conseguindo focalizar vários ângulos do acontecimento, produzindo fotos inéditas para a imprensa estadual e nacional.

Começa o tiroteio. A ordem é para atirar para cima, a princípio. As balas cortam o ar e vão atingir o bairro Bom Retiro, que fica a 2 Km de distância, e as proximidades do Rio Piracicaba, após este bairro. Mas outros disparos são ouvidos pelos operários. O matraquear da metralhadora de tripé, agora, é incessante. O padre recomenda que todos se abaixem entre os trilhos da ferrovia para evitar o alcance das balas que cospem sem para de cima do caminhão. Quando já se ouvia o apito do trem expresso Nova Era-Vitória, ainda distante, no bairro Maringá (hoje Amaro Lanari), as armas foram apontadas contra os operários que tentavam se proteger e atiram contra eles. O trem parou ante o acontecimento. As balas agora atingem diretamente os corpos dos operários, que ao serem perfurados vão subindo, se deslocando no ar, rolando e gemendo de dor. Era a cena mais terrível que se podia presenciar, dizia mais tarde um operário. As armas continuam cuspindo balas sem cessar, por mais de 15 minutos. Vários trabalhadores, enfurecidos, lamentavam, naquele momento, não dispor de armas equiparáveis com as da polícia. Talvez tivesse surgido ali mesmo o maior movimento guerrilheiro da história do país. Fazia 4 anos que os heroicos barbudos da “Sierra Maestra”, comandados por Fidel Castro e Che Guevara, davam uma demonstração de coragem ao mundo inteiro derrubando a ditadura fascista de Fulgêncio Batista e assumindo o poder em Cuba. Eram momentos que passavam pela cabeça de muitos, enquanto outros iam tombando feridos ou mortos. José Isabel, que se preparava para fazer novas fotos, foi atingido com vários balaços, caído gravemente ferido, morrendo dez dias depois na casa de saúde Santa Terezinha. Um cego que pedia esmola á multidão de operários, também foi atingido por vários projéteis, morrendo no local. Eram 16 soldados, um cabo e o tenente, segundo a polícia, armados de revolveres, metralhadas e fuzis. Durante quase 20 minutos parecia uma praça de guerra. Só se ouvia estrondos de fuzis e rajadas de metralhadoras, gritos e gemidos. Um trabalhador tentou pegar um policial por trás e tomar-lhe a metralhadora. Outro policial, do outro extremo do caminhão, atirou-lhe com o fuzil. Foi uma morte horrível. Em seguida, os soldados foram se retirando e atirando pelos caminhos, em direção ao morro Vista Alegre, um bairro distante do centro da cidade. Na fuga os soldados metralharam uma garotinha Eliane Martins, de três meses de idade, que estava nos braços da mãe, Antonieta Martins, quando saíam de um consultório médico, junto ao escritório central. Eliane morreu na hora e sua mãe foi internada em estado grave. Várias outras pessoas foram sendo metralhadas pelo caminho. A ambulância que socorria os feridos também foi metralhada. “Os soldados criminosos não respeitaram a ambulância de placa 41-34-58, da Usiminas, que estava empenhada no socorro dos feridos. Os soldados dispararam vários tiros contra o veículo, colocando em risco a vida do seu motorista Hélio Soares. Duas perfurações foram feitas na ambulância”. Na ocasião, o trânsito havia sido paralisado em frente ao escritório central, devido aos acontecimentos. Operários e populares que rastejavam morro acima fugindo do tiroteio eram agora impiedosamente atingidos pelos soldados em fuga.

Todas as viaturas da Usiminas foram mobilizadas para transportar os feridos. Ocupavam-se imediatamente todos os hospitais da região: Coronel Fabriciano, Acesita, Ipatinga, Antônio Dias, Nova Era, Monlevade e Governador Valadares. Daniel Miranda Soares, em seu trabalho, relatou o número de mortos: “Foram mais de 3 mil feridos a bala e morreram 33 trabalhadores até o dia seguinte, em consequência dos ferimentos; embora as emissoras de rádio e os jornais dessem conta de “80 feridos e 7 mortos …”. Não se sabe ao certo o número de mortos, pois foram ocupados todos os hospitais da região e de fora da região muitos trabalhadores feridos procuraram seus parentes em suas regiões de origem e foram enterrados por lá; mas é bem provável que se situe em trono de 100 o número de mortos pela chacina, segundo os próprios trabalhadores.”
O jornal Em Tempo (20/31 de março de 1978) publicou o depoimento de um operário que pediu omissão de seu nome: “Foram mais de 80 mortos. Os hospitais, casas de saúde de Coronel Fabriciano, Belgo Mineira, casa de saúde Santa Terezinha de Ipatinga, ambulatório da Usiminas, ficaram todos cheios de mortos e feridos. Na casa de saúde de Coronel Fabriciano, por exemplo, cearam de uma só vez dez mortos, que foram empilhados e que os médicos nem tiveram o que fazer, porque os feridos eram muitos e precisavam de atendimento rápido. Nem os familiares dos mortos e feridos podiam entrar no hospital porque os policiais cercaram a entrada para que ninguém visse”. O cartório de óbitos de Ipatinga, contudo, não acusa a ocorrência de mais que duas mortes entre os dias 7 e 10 de outubro de 1063. O cemitério da cidade não tem registro relativo a essa época, embora o administrador se recorde de ter recebido pelo menos 21 corpos “furados a bala”. O padre Abdala Jorge contou recentemente que não sabe ao certo o número de mortos, mas ao chegar no hospital Nossa Senhora do Carmo na manhã do dia 7, viu 11 mortos. Várias outras versões dão conta de que morreram mais de 30 operários. Chega-se a dizer que vários corpos foram encontrados no meio do mato, que teriam sido atingidos pelos tiros quando fugiam rastejando nos morros ou no meio do eucalipto. Assim resultou a chacina.
Após a fuga da polícia, que se entrincheirara nos morros ao redor da cidade, “com medo da reação dos operários”, várias coisas aconteceram: um cadáver de um operário metralhado foi levado até o escritório central por um grupo de companheiros, e colocado em cima da mesa do engenheiro Gil Guatmosin e todos de uma só voz disseram: “o senhor mandou matar, agora coma-o”. Gil Guatimosin saiu pelos fundos e fugiu pelo mato, com medo de ser linchado. Se não o tivesse feito, o linchamento realmente poderia ter sido consumado, visto a disposição dos trabalhadores revoltados. De volta, os operários quebraram a incendiaram a guarita onde a confusão começou na noite anterior. Os vigilantes também desapareceram. A cidade agora estava por conta da massa. Então, uma multidão revoltada deixou o local da chacina e partiu para o centro da cidade, onde quebraram a marretadas a cadeia pública, após soltarem os presos que lá estavam, e a queimaram, ateando fogo também em várias casas na dona do Juá, como veremos mais à frente. Durante três dias seguidos, os operários descarregariam suas sagradas revoltas…

Enquanto isto, o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Coronel Fabriciano, Geraldo Ribeiro, foi avisado pelo Padre Abdala, que viera de Ipatinga pela manhã para verificar os acontecimentos, de que a situação na Usiminas era grave e que o sindicato teria que intervir. Foi então, segundo o padre, que o presidente do Metasita acompanhado de ouros diretores se dirigiram para Ipatinga, para dialogar com os trabalhadores a negociar com a empresa.

