No dia 4 de janeiro de 1953, domingo, a vila de Ipatinga vivia um dia com outro qualquer, de um lugarejo à beira de uma estrada de ferro. A vila tinha um comércio muito pequeno e apenas uma rua, onde se situava um bazar muito conhecido. O dono desse bazar, que vendia desde mantimentos até armarinhos, era um homem queridíssimo pelo povoado. Sua vendinha era de todos. Sempre procurava ajudar o próximo. Vendia fiado, às vezes nem recebia. Muitas vezes este homem saía da vila e ia até a cidade de Coronel Fabriciano comprar remédios para pesoas doentes do povoado. Isto tudo sem nunca ter pedido nada em troca. Preocupava-se muito com a vida de Ipatinga.
Mas, neste dia 4 de janeiro, pela manhã, ele teve que ficar ausente da loja, onde deixou sua esposa e seus filhos menores tomando conta. Todos os domingos o comércio ficava aberto pela manhã. Na porta da loja um mascate brincava ocm os meninos, fazendo mágica com um barbante. No momento, o soldado que fazia a segurança da vila (naquela época era um soldado só, para Ipatinga e Coronel Fabriciano), também considerado um carrasco do qual todos tinham medo. passava em frente à loja, acompanhado de seu mulher. Quando ele viu o mascate, parou e aproximou-se dizendo ao vendedor que saísse da cidade, pois ele não queria mascates por ali. O mascate não falou nada e o soldado se afastou. Quando já estava a uns dez metros de distância resolveu voltar, começando a espancar o mascate a golves de fuzil. O pobre homem ficou sangrando muito na porta da loja.
Quando o dono da bazar voltou, vio aquele home e escutou o relato das testemunhas, ficou bastante revoltados com mais aquele abuso da autoridade. Todo o povo ali reunido reslveu, por unanimidade, que uma comissão de pessoas iria à tarde em Coronel Fabriciano pedir ao escrivão de justiça (maior autoridade na época) a transferência daquele soldado para outro lugar.
O fazendeiro Jair Gonçalves emprestou o caminhão para levar estas pessoas. Às três da tarde o caminhão já esperava todos aqueles que iriam. Antes da partida o dono do bazar pediu a todos que fossem desarmados, pois ninguém iria para brigar e sim para resolver um problema, sem atritos. Às 4, o caminhão partiu para a cidade vizinha.
Chegando lá, estacionou na praça da estação ferroviária. O dono do bazar se retirou voltando minutos depois, falando ao pessoal que esperava no veículo, que tinha conversado e relatado ao escrivão o ocorrido e este havia mandado chamar o soldado, que se encontrava naquele momento no cinema da cidade. Logo depois o soldado apareceu e aproximou-se do caminão. O dono do bazar desceu da cabine e começou a conversar com ele, mas este respondeu com insultos. Como o negócio não era briga, o homem deu as costas para o soldado e abriu a porta da cabine para entrar novamente. No momento, traiçoeira e covardemente, o policial sacou um revolver e, à vista de todos os presentes, acionou o gatilho da arma três vezes e fugiu em seguida.
Alvejado, o home tombou inerte, sem vida. Naquele momento, Ipatinga perdia, de maneira ingrata um de seus filhos e pioneiros: João Valentim Pascoal. Ele deixava a mulher e sete filhos.
No dia seguinte, vindo dos arraiais e lugarejos próximos, parentes e amigos de João Valentim Pascoal foram ao cemitério de Coronel Fabriciano dar o último adeus ao grande amigo.
(Compilado da revista Gente do Vale do Aço, edição de maio de 1980, pág. 19)

